Dom de Línguas: Linguas Estranhas ou Estrangeiras?

Publicado: 07.06.2013 em Dom de Línguas, exegese, Glossolália, Grego, Teologia, Xenolália

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Com o advento do pentecostalismo, a igreja Cristã começou a ser conhecido através da manifestação dos dons: Profecia, dom de línguas, dom de curar, dom da palavra da sabedoria, dom da palavra do conhecimento, etc.

Após a popularização das denominações pentecostais, começaram a surgir algumas décadas mais tarde, uma nova categoria denominada Neopentecostal, ramificação desse mesmo pentecostalismo, porém com ênfase no exorcismo, e outras práticas não comuns denominações Pentecostais ‘históricas’.

Logo após o surgimento dos Neopentecostais, passou-se a haver manifestações ‘ditas’ pentecostais nos mais diversos meios cristãos, inclusive por parte da igreja católica, o que deu origem a um novo seguimento Chamado de carismáticos, ou seja, que são peculiares em relação ao “χάρισμα”(i.e., dom, do gr. χάρις = graça, favor), ou seja, diferenciam-se por manifestações daquilo que chamam de dons.

Ultrapassando os rótulos denominacionais, temos os cristãos carismáticos, categoria que, independente de fazer parte de igreja pentecostal, neopentecostal, ou histórica (tradicional) acredita e/ou manifesta os dons espirituais.


É comum porém perceber que entre os dons manifestados, o mais comum e mais veiculado na cultura Pentecostal/Carismática, é o dom de falar em outras línguas; conhecido no meio teológico pentecostal como dons de expressão, a manifestação deste dom gera muita polêmica até entre os pentecostais, afinal, essas línguas faladas são línguas humanas vivas, mortas, línguas dos anjos, ou línguas espirituais?


Antes de continuarmos, gostaríamos de deixar claro que nossa intenção aqui não é provar a existência ou não do dom de línguas, visto que, esse artigo pretende, antes de tudo, esclarecer algumas confusões existentes entre aqueles que acreditam que tal manifestação é possível, qualificando, portanto, esse escrito como favorável à manifestação desse dom.

A primeira manifestação que encontramos na Bíblia acerca desse dom é descrito lá em Marcos 16: 9~20, quando o próprio Cristo instruía aos discípulos sobre os frutos da fé. Embora muitos teólogos afirme que esse trecho não seja encontrado nos principais pergaminhos, podemos olhar para tais versículos como sendo as primeiras referencias do novo testamento em nossa tradução comum, que aborda o tema “Falar em Línguas”.

Lá no livro de Atos temos a manifestação propriamente dita deste dom. Sem querer abordar a diretriz deixada pelo Senhor no versículo 8 do primeiro capítulo de Atos, podemos então migrar diretamente para o capítulo 2, quando em seu versículo 3 e 4 declara:

E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. (Atos 2:3-4)
A manifestação se fez naquele momento, fora o aparecimento de “línguas” de fogo, e o falar outras “línguas”; quando recorremos ao grego (língua original em que foi escrito o novo testamento), encontraremos a palavra “γλωσσαι” (glossai), que significa literalmente “línguas”;

Logo após vemos novamente a palavra língua, porém o termo grego usado não é “γλωσσαι”, mas o “διαλεκτω”(Dialekto); embora ambos os termos estejam sendo traduzidos como a palavra “língua”, há uma peculiaridade entre eles.

De acordo com o Dicionário Strong, a palavra “γλωσσαι” provém de “γλωσσα”, que em sua essência refere-se à “língua como membro do corpo, orgão da fala, idioma ou dialeto usado por um grupo particular de pessoas, diferente dos usados por outras nações”. Já a palavra “διαλεκτω”possui seu significado peculiar ao da palavra “γλωσσα”, como vemos a seguir “conversação, fala, discurso, língua ou a linguagem própria de cada povo”; 

Enquanto que o primeiro termo trata do órgão da fala, podendo-se “também” aplicar-se ao idioma, o segundo termo é usado especificamente para o produto do órgão da fala, em específico o idioma. 

O verbo λαλεω (laleo), possui significado amplo, podendo ser desde um simples emitir uma voz ou um som, falar, usar a língua ou a faculdade da fala, emitir sons articulados, conversar, anunciar, contar, usar palavras a fim de tornar conhecido ou revelar o próprio pensamento, ou simplesmente “falar”; esse verbo dá origem a palavra λαλια (lalia), que significa dicurso, i.e, uma estória, dialeto, modo de falar, pronúncia, ou num sentido mais amplo: “modo de falar que revela o país de origem da pessoa que fala”.

Logo, criou-se na teologia pentecostal dois termos: a glossolalia (glossa+ laleo = falar Linguas [lit.] ) – quanto a manifestação temos; e a Xenolália (xenos[estrangeiro]+ laleo = falar Estrangeiro) – em relação ao entendimento dos ‘estrangeiros’;

Os termos apresentados a pouco (Glossolália e a Xenolália), foram criados no meio teológico a fim de diferenciar o Falar em línguas espirituais e Falar em outros idiomas, embora ambos sejam manifestação do Espírito de Deus. A Palavra ξενος (xenos), é usada em seu sentido literal como estrangeiro, (conf. Hb 11:13 – …confessaram que eram estrangeiros…), dando desse modo uma amplitude ao termo xenolália; podemos compreender o sentido desse termo olhando para a palavra xenofobia, que veria a ser aversão ao estranho, estrangeiro, outra raça.

A palavra “διαλεκτω”, quando relacionada ao falar em línguas, só é usado em algumas outras passagens, e em nenhuma dessas temos outra referencia senão línguas vernáculas de países específicos (conf. At 1: 19; 2:6,8; 21: 40; 22:2; 26:14); embora a palavra traduzida no português seja língua, essa nunca adota o sentido da palavra “γλωσσαι”. 

Com base firmada nisso, podemos então passar a outras passagens que abordem o Falar em línguas, e não encontraremos outro termo grego além do “γλωσσαι”; Logo, o dom de línguas, normalmente não estará atrelado ao falar idiomas (xenolália), e sim trata-se da expressão de falar em Mistério (I Co 14:2~6);

Este trecho especificamente é bastante esclarecedor sobre o falar em línguas. Em nenhum momento em que a palavra língua aparece outro termo é usado senão “γλωσσαι”; e para complementar esse esclarecimento, Paulo usa aqui duas expressões bastante interessante: 

Aquele que fala em línguas não fala aos homens, senão a Deus: ninguém o entende, pois fala coisas misteriosas, sob a ação do Espírito. (1 Coríntios 14:2)

Primeiro Paulo afirma que NINGUÉM ENTENDE: não há pessoa que venha entender o que se fala naquele momento. A Palavra entender vem de “ακουω” que significa também ouvir, compreender, perceber pela audição; o fato aqui não é que ninguém entenda, é que, mesmo que alguém ouça, não irá compreender o que se fala, ou será percebido por sua audição e, consequentemente pela mente, o que se está falando ali, a não ser que haja interpretação, que não será possível por nenhum interprete, senão pelo Espírito Santo de Deus (I Co 12: 10~11), segundo seu pedido feito em oração (I Co 14:13~14)! 

Segundo, quem fala, fala em MISTÉRIO: na versão católica temos um termo mais apropriado: “pois fala coisas misteriosas”, μυστηριον (musterion), “é derivado de muo (fechar a boca), algo escondido, secreto, segredos religiosos, confiado somente ao instruído e não a meros mortais, algo escondido ou secreto, não óbvio ao entendimento, propósito ou conselho oculto, vontade secreta, dos homens, de Deus: os conselhos secretos com os quais Deus lida com os justos, ocultos aos descrentes e perversos, mas manifestos aos crentes, nos escritos rabínicos, denota o sentido oculto ou místico”(Strong); Não são palavras que compreendamos! É algo entre Deus e o orador! Quem fala esse mistério, fala em espírito (vv.2), edifica-se a si só (vv.4), fala palavras INITELIGÍVEIS [μη ευσημον {me eusemon} = não inteligíveis] (vv.9), foge à compreensão, e precisa pedir que o interprete de gemidos – o Espirito Santo – lhe favoreça com a compreensão, para que o seu Dom seja de proveito para toda a igreja, a fim de que esta cresça em Cristo! (vv.5).
Para não devermos, em I Co 13: 1 paulo poetiza:
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. (1 Coríntios 13:1)

De maneira nenhuma o Apóstolo afirma que falamos línguas dos anjos, antes, ele faz uma analogia entre Céu (Anjos) e Terra (Homens), a fim de que fique bem expresso que acima de qualquer coisa, o amor é mais sublime, é o caminho perfeito (Conf. I Co 12:31, I Co 13:8,13). Logo, língua dos anjos não é a designação adequada para o dom de línguas.

Em resumo podemos então afirmar que o Falar em Línguas, não se reporta ao falar idiomas (quer vivo ou morto) – há não ser que Deus assim o queira que você fale! – mas ao falar coisas espirituais, de forma espiritual, concedido pelo Espírito:

Aquele que fala em línguas não fala aos homens, senão a Deus: ninguém o entende, pois fala coisas misteriosas, sob a ação do Espírito. (1 Coríntios 14:2 – BJ)

Acreditamos que esta é uma boa base para que você saiba mais um pouco sobre esse dom maravilhoso que Deus lhe concedeu! Continue manifestando este dom! Ore para que venha ser útil à Igreja de Cristo (interpretação), Busque para experimentar esse Dom que é dado por graça! Mas acima disso tudo, procure o caminho excelente, o caminho do amor de Deus, porque tudo passa, mas o amor é a única substância que fica para a eternidade.
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